Dossiê RBE - ANPEd 40 anos: a construção de resistências criativas na pesquisa e na pós-graduação

Neste mês de outubro de 2019, a Revista Brasileira de Educação (RBE) publica, em seu volume 24, o Dossiê temático "ANPEd 40 anos: a construção de resistências criativas na pesquisa e na pós-graduação para a longevidade da relação entre educação e democracia”. O especial reúne artigos exclusivos sobre produção científica, escola pública e universidade, educação democrática e a BNCC, Educação do Campo, Educação de Jovens e Adultos, a discussão sobre educação nos Boletins da Associação e um balanço sobre as quatro décadas da ANPEd.

E é sobre o artigo “ANPEd: rumo a meio século de lutas por educação democrática” que você confere entrevista. A autora, Maria Antonia de Souza (Universidade Estadual de Ponta Grossa), parte de documentos da entidade para abordar temas como sociedade civil e democracia. Tal pesquisa, assim como as demais do Dossiê da RBE - resultando em diversidade temática, de abordagens e de regiões do país na autoria -, trazem a perspectiva de resistência mediada pelo conhecimento e produção científica, algo fortemente estimulado e defendido pela ANPEd nestes 40 anos. 

Resultante de uma Chamada Pública, divulgada no final de 2018, o Dossiê foi organizado por comitê editorial específico, contando com dois Editores da Comissão Editorial da RBE -  Márcia Denis Pletsch e Salomão Antônio Mufarrej Hage - e três Editoras convidadas -  Andréa Barbosa Gouveia; Maria Dilnéia Espíndola Fernandes e Miriam Fabi Alves - da atual Diretoria da ANPEd. Foram recebidas 37 submissões e os sete artigos agora publicados foram os aprovados por pareceristas ad-hoc e pela comissão editorial mista.  

A chamada foi para textos que discutissem "questões que a pesquisa e a pós-graduação em educação nos tempos presentes nos fazem pensar e propor para agendas político-acadêmicas da associação que estão por vir e que necessitariam ser problematizadas e provocadas a se transformar em pautas de um futuro mais ou menos próximo. Algumas problematizações podem advir das seguintes provocações: O que nos contextos contemporâneos poderiam significar desafios, outros olhares e perspectivas de diferença na vida futura da associação? Relatos e experiências de outras associações internacionais mais ao norte, mais ao sul, ou em outra bússola, poderiam nos dizer que outras dimensões? Que lugares entidades, atores e  pesquisas de pós-graduação em educação vêm ocupando nos cenários de diagnóstico, proposição e disputa de políticas públicas no Brasil? Que fluxos hegemônicos e contra-hegemônicos são desenhados local e globalmente nas relações entre essas associações? Como se relacionam com os movimentos sociais?  Há mesmo o necessário clamor de conversa implicada com a escola básica e com a qualificação do trabalho de professoras/es?”

DOSSIÊ - Editorial: 40 ANOS DE ANPED  - clique aqui para acessar
Andréa Barbosa Gouveia; Márcia Denis Pletsch; Maria Dilnéia Espíndola Fernandes; Miriam Fabi Alves; Salomão Antônio Mufarrej Hage.

ANPEd: rumo a meio século de lutas por educação e democracia (Maria Antônia de Souza).
A produção científica dos coordenadores do Grupo de Trabalho Currículo da ANPEd: opções teórico-metodológicas (Cleide Caravalho Matos).
Pesquisa em educação de jovens e adultos: memórias e ações na constituição do direito à educação para todos (Jane Paiva; Sérgio Haddad; Leôncio José Gomes Soares)
Boletins da ANPEd: das possibilidade de problematização das questões educacionais para além dos espaços acadêmicos (Helena Maria Ferreira; Francine de Paulo Martins Lima; Marco Antonio Villarta-Neder.)
A produção do conhecimento na licenciatura em Educação do Campo: desafios e possibilidades para o fortalecimento da educação do campo (Mônica Castagna Molina; Maria Isabel Antunes-Rocha; Maria de Fátima Almeida Martins)
Rede Escola Pública e Universidade: produção do conhecimento para/com as lutas educacionais (Débora Cristina Goulart; Fernando L. Cássio; Salomão Barros Ximenes)
Educação e democracia: Base Nacional Comum Curricular e novo ensino médio sob a ótica de entidades acadêmicas da área educacional (Marilda de Oliveira Costa; Leonardo Almeida da Silva)

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Entrevista com Maria Antonia de Souza (Universidade Estadual de Ponta Grossa)

 

O que marca para a Educação brasileira os 40 anos da ANPEd?

A ANPEd é um dos espaços formativos da Educação brasileira. Em seus 40 anos, tem possibilitado encontros e interação entre os professores e pesquisadores da Educação, pertencentes a diferentes áreas do conhecimento. Tem gestado pesquisas interinstitucionais desde a sua origem. É referência na divulgação de conhecimentos produzidos na pós-graduação brasileira, por meio dos seus Grupos de Trabalho, e no reconhecimento dos pesquisadores da Educação. A Associação tem importante papel na construção da política de pós-graduação stricto sensu em educação no Brasil, propondo e mediando debates sobre o futuro da pós-graduação, da produção do conhecimento científico, da escola pública, da efetivação do direito educacional, e demarcando lugar político na luta pela Educação pública, gratuita e de qualidade. Nesse sentido, é um coletivo de luta por democracia, direitos e políticas públicas, mediante análises das relações entre Estado, governos e sociedade civil. A ANPEd dá visibilidade às disputas políticas entre projetos opostos de sociedade e de educação. Possibilita a identificação da contradição na educação, por meio do debate da ideologia e do discurso fundante de cada projeto político, bem como da disputa entre projetos. Marca a história da Educação no Brasil e a trajetória de milhares de pesquisadores que se lançam no mundo acadêmico-científico mediante participação, apresentação e debate dos resultados de suas investigações nas Reuniões Nacionais. Em síntese, a ANPEd tem expressão na história da Educação brasileira como coletivo de lutas por uma educação efetivamente democrática, de resistência à privatização da educação e perdas de direitos, e de mediação na produção do conhecimento e na construção de políticas educacionais. Sua abrangência nacional é enriquecida no movimento das Reuniões Regionais, dos Grupos de Trabalho e das mediações estabelecidas com os demais coletivos de trabalhadores da sociedade civil.

Qual o papel das Reuniões Nacionais neste contexto?

As Reuniões Nacionais são como a “mística” do coletivo, no sentido da provocação para o debate das questões urgentes da conjuntura nacional, em particular da educação, analisadas à luz dos condicionantes estruturais da sociedade brasileira. Ao longo dos seus 40 anos, a ANPEd identifica problemáticas relacionadas à conjuntura e estrutura da sociedade brasileira, que merecem debate nacional, em especial as que se relacionam com a Educação. Dentre os temas e problemas debatidos em Reuniões Nacionais estão a pós-graduação (Mestrado e Doutorado em Educação), ensino superior e universidade, educação e Constituinte, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, neoliberalismo e educação, educação e exclusão, ciência e educação, conhecimento e poder, diversidade e desigualdade, governos e políticas, sociedade e democracia, pesquisa e compromisso social, educação e justiça social, sistema nacional de educação e participação popular, lutas e resistências na conjuntura de democracia em risco, entre outros. O conjunto de temas e problemas debatidos nas Reuniões Nacionais indica que a ANPEd se movimenta como prática social, pautada pelas necessidades emergentes no campo educacional, no contexto das relações contraditórias que marcam a política brasileira. Esse vínculo estreito da Associação com a prática social é propiciado pela dinâmica dos seus Grupos de Trabalho e pela sua natureza de “coletivo de lutas e resistência”. Destaca-se a prática democrática da ANPEd na construção das suas pautas e das reuniões nacionais e regionais. Portanto, as reuniões são espaços dialógicos de aprofundamento de temas e problemas da sociedade brasileira, em particular da educação, bem como de definição de estratégias de lutas e resistência contra perda de direitos e em prol do fortalecimento da democracia e da educação democrática. As reuniões nacionais e as regionais colocam em pauta os interesses específicos da educação brasileira e a relação entre eles e o Estado Brasileiro. Demarcam um campo de lutas na Educação Brasileira.

Como olhar para essa trajetória de lutas pela educação democrática e ao mesmo tempo mirar esse caminho rumo a meio século de atuação?

Vejo a ANPEd em três frentes de lutas: primeiro, a luta pela constituição da pós-graduação no Brasil e o fortalecimento da educação pública, gratuita e de qualidade; segundo, a produção dos seus debates internos e externos a partir da dinâmica societária e da constituição/reestruturação dos Grupos de Trabalho e, terceiro, pela aproximação com os demais coletivos da sociedade civil, a exemplo dos Fóruns, movimentos e organizações sociais, bem como as demais associações e entidades acadêmico-científicas. Em 40 anos, a ANPEd construiu 23 Grupos de Trabalho, dezenas de reuniões regionais e participou da constituição de mais de 170 pós-graduação stricto sensu em educação, provocou e participou de audiências públicas junto ao Poder Executivo, fortaleceu as conferências nacionais de educação e centenas de publicações sobre a Educação brasileira. Assim como outras entidades como ANPAE, HISTDEBR, FONEC, FNPE, ENDIPE, EDUCERE, SIFEDOC, entre tantas outras, é resistência e luta por democracia, educação e emancipação humana. A ANPEd e demais associações científicas da educação, os movimentos e coletivos de trabalhadores, a constituição de espaços públicos de debate da política educacional e de proposição de pautas governamentais, são lugares das vozes e da visibilidade delas como construção de conhecimentos e como resistência a políticas excludentes. Possibilitam o desvelamento dos discursos pautados por referenciais comuns, porém vinculados a projetos societários opostos. A exemplo do que fizeram o FNDEP, FNPE, ENERA, FONEC, os movimentos de estudantes do Ensino médio, entre outros, o momento político exige organização e formação de um coletivo maior. Houve um momento de lutas de cada sujeito de direito, desde os camponeses, indígenas, quilombolas, pessoas com necessidades especiais, pessoas jovens e adultos, crianças, homoafetivos, entre outros. Foi o momento da luta pelo reconhecimento do sujeito de direitos, décadas de 1990 à primeira década do século XXI. O momento é de congregação das forças já constituídas com fundamento nas lutas de classe e culturais-identitárias. A ANPEd poderá avançar para a aglutinação dos coletivos que estão fortalecidos do ponto de vista do conhecimento, porém isolados ou distanciados em termos de articulação política. A resistência como criação de algo novo pauta-se pelo reconhecimento dos princípios comuns em coletivos que defendem um mesmo projeto político, embora tenham suas singularidades de gênese. Os coletivos de luta e resistência por um projeto democrático de País estão por toda parte, no campo e na cidade, uns mais visíveis, outros nem tanto, porém todos em movimento!

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