Entrevista RBE | "Intenção de abandono profissional entre professores: o papel dos estressores ocupacionais"

A Revista Brasileira de Educação (RBE), em seu lote de julho de 2019, traz o artigo "Intenção de abandono profissional entre professores: o papel dos estressores ocupacionais". Em entrevista ao portal ANPEd, as autoras, Mary Sandra Carlotto (Unisinos), Sheila Gonçalves Câmara (UFCSPA) e Michelle Engers Taube de Oliveira (Univates), contam sobre pesquisa realizada em cidade da região metropolitana de Porto Alegre (RS) e como o abandono profissional afeta o sistema como um todo, de desgaste psicológico a prejuizos de aprendizagem e financeiros para a gestão. Nesse sentido, mostra-se importante a atenção à "intenção de abandono".

O abandono profissional é colocado como um problema internacional. O que geralmente leva a essa decisão na carreira docente e como isso impacta no sistema de ensino?

Existem diversos motivos que levam o professor a abandonar sua profissão, independentemente do nível de ensino em que atue. Há um desgaste importante desse profissional no que se refere ao contato diário em termos das relações humanas que estabelece com diferentes realidades que vão desde os alunos, em sala de aula, até as instâncias de gestão. Além disso, alguns agravantes se devem ao contexto da educação em alguns países, como o Brasil. Ressalta-se a crescente desvalorização social da profissão, as limitadas possibilidades de ascensão na carreira, os baixos salários, as precárias condições de trabalho e a sobrecarga de papéis a desempenhar.

O abandono profissional docente precisa ser considerado não somente como um problema que impacta no sistema de ensino, mas como um sintoma de problemas no sistema como um todo. Economicamente, incide em prejuízos referentes aos gastos com novas contratações e treinamentos. No que tange aos projetos de trabalho, implica em dificuldades de coesão grupal e o estabelecimento de metas compartilhadas. Em termos das relações interpessoais supõe desgaste e afastamento psicológico. Dessa forma, o maior impacto ocorre na qualidade do processo ensino-aprendizagem e, consequentemente, no ensino oferecido à população.

O texto dedica atenção especial à "intenção de abandono profissional ". O que significa isso e o que já foi mensurado a respeito?

A intenção de abandono profissional diz respeito ao pensamento em deixar sua profissão em um futuro próximo, o que, não necessariamente, significa que ocorrerá o abandono. Ainda que esse não se efetive concretamente, quando se estabelece a intenção, decorrente da insatisfação no e com o trabalho, se inicia uma espécie de abandono psicológico. Nesse processo, o professor tende a trabalhar abaixo do seu potencial, realizando o mínimo necessário para manter-se na ocupação. Tal situação, que tem por objetivo a preservação da saúde mental e física, acaba, também, por ser geradora de estresse, uma vez que há percepção da incongruência entre o comportamento e os projetos referentes à docência. A saída definitiva, em termos de comportamento efetivo, dependerá de uma diversos fatores contextuais como o mercado de trabalho, se restrito ou expandido.

A intenção de abandono se faz mais visível em termos de aspectos como absenteísmo [padrão habitual de ausências no processo de trabalho] e número de licenças por motivos de saúde. Não é possível afirmar que a intenção repercuta, efetivamente, em abandono, no entanto, sabe-se que a intenção é um potente preditor do comportamento.

Como se deu a pesquisa realizada com professores da rede básica em uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre? Algo em especial surpreendeu vocês?

Pesquisas sobre estressores e saúde mental com professores da rede básica desta cidade ocorrem desde 2008 e nesta, mais recente, incluiu-se esta temática devido a uma demanda da própria equipe da secretaria municipal de educação, que relatava a perda de professores, geralmente jovens, para outras atividades no mercado de trabalho. Em um dos levantamentos realizados, identificou-se que 57% dos professores já haviam, em algum momento, cogitado abandonar a profissão e 18% pensavam nesta possibilidade diariamente. Estes dados nos surpreenderam, devido ao elevado índice.

Qual a importância de se identificar o poder de fatores de estresse ocupacionais para a tendência ao abandono? Como as políticas públicas poderiam agir a fim de reverter este quadro?

A retenção de professores tornou-se um importante problema a ser enfrentado pelos gestores educacionais. No entanto, a questão extrapola o setor educacional e precisa ser considerada de maneira intersetorial, considerando os setores do trabalho, da saúde, da segurança, entre outros. Sua relevância deveria ser considerada em um nível macrossocial, no que se refere ao valor conferido à educação em determinado contexto.

Em termos de ações diretas sobre o fenômeno, sugere-se estratégias voltadas para a reconfiguração do conteúdo do cargo, no sentido de proporcionar melhores condições de trabalho para que o professor desempenhe suas funções atendendo seus objetivos pedagógicos. Equipes e profissionais especializados de suporte podem contribuir para reduzir a necessidade do professor desviar-se de seu papel e atribuições docentes. Com a falta de professores no horizonte, as políticas públicas precisam colocar a estabilidade e a atração de novos docentes como prioridade, sendo as estratégias para reduzir o estresse e o fornecimento de suporte para os professores importantes esforços nessa direção.

 

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